MATURANA, VARELA E O CONHECIMENTO
Ao concluir a leitura da obra A árvore do conhecimento, pode-se dizer que Maturana e Varela promovem uma revisita para o início da vida e da formação autopoiética das células e da civilização. De modo particular, antes da leitura da obra, optei por realizar uma reflexão própria sobre conhecer e conhecimento, baseada em conceitos lingüísticos mais objetivos, que estavam à meu alcance, associando a estes algumas considerações. Após passei para a leitura indicada.
Como ensinam os autores toda reflexão ocorre na linguagem, é isso que nos faz seres humanos. Talvez por esse motivo, instintivamente, tenha iniciado as minhas primeiras considerações trazendo conceitos, mais objetivos que subjetivos, de certo modo ainda dentro de uma clausura operacional, por ser a linguagem o ponto de partida, já que todo conhecer depende da estrutura daquele que conhece. (p. 40)
Ora, somos todos seres vivos, frutos de organizações autopoiéticas (p. 52), nos relacionamos em redes. Contudo, para compreender nossa organização precisamos entender nossa autonomia (p. 56), nosso ser e fazer individual que reflete na organização total da rede. Por este motivo, sair da clausura operacional, fazer uso do livre arbítrio existente entre o nosso ser orgânico e o nosso comportamento (p. 136), observar nossa evolução (transitando do passado ao futuro) é fundamental. Assim como não há outro modo de fazer isso a não ser meio da linguagem. Como mesmo ensinam os autores, o leitor entende o que entende porque sua estrutura presente – e portanto, de modo indireto, sua história – assim determinam. (p. 139)
Neste sentido, a plasticidade exerce papel de crucial importância. A estrutura do meio pode desencadear mudanças, já que o organismo obtém informações do ambiente, que a seguir utiliza para construir uma representação de mundo que lhe permite computar um comportamento adequado à sua sobrevivência nele. (p. 146) Precisamos aprender a exercitar a nossa contabilidade lógica, a andar sobre o fio da navalha e estabelecer uma correspondência entre os diferentes domínios (orgânico e neuronal), expandir (p. 154) o domínio de condutas possíveis com versatilidade e plasticidade, permitir o acoplar pelo movimento, de acordo com os humores internos do organismo. (p. 171) Se a particularidade das conexões e interações que as formas neuronais tornam possíveis constitui a chave do funcionamento do sistema nervoso (p. 171), temos que abrir espaço às sinapses ocasionadas pelo contato, pelo comportamento, pelo ambiente físico e cultural que nos cerca, nos move e nos modifica.
Como professores e professoras analogicamente, somos os mediadores destas acoplagens. Nossos alunos e alunas já detêm determinados conhecimentos prévios, comportamentos (de acordo com sua cultura), suas necessidades físicas e orgânicas e podem ser colocados frente a novas situações, a outros conhecimentos, culturas, comportamentos, que produzirão uma determinada reação ao acoplá-las mediante as sinapses. Precisamos expandir nossos conhecimentos, dar-nos conta de que as perturbações internas são mais determinantes que as perturbações externas. Assim, nós professores, podemos ser, analogicamente, as sinapses entre, as perturbações externas e internas. Isso quer dizer que o sistema nervoso não capta as informações, constrói e o conhecimento, como a linguagem é o resultado do acoplamento estrutural. Conforme os autores, a existência do ser vivo na deriva natural – tanto ontogenética quanto filogenética – não acontece na competição e sim na conservação da adaptação (p. 219). Isso me leva a pensar que nossa profissão exige plasticidade para adaptar-se às novas situações e resiliência, para saber como lidar com as relações estabelecidas nos diferentes ambientes.
Para tanto, teremos que fazer uso de nosso domínio lingüístico, pois a nossa existência depende disso. Se nos primeiros hominídeos a linguagem surgiu por conta de saciar a fome física, pelo estabelecimento de relações interpessoais afetivas e estreitas, associadas à coleta e à partilha de alimentos (p. 240), hoje não acontece de modo muito diverso. Utilizamo-nos da linguagem para saciar a fome e a partilha de conhecimento.
Para avançarmos, enquanto seres vivos e sociedade, e seres vivos de pertença na humanidade, temos que praticar a “trofolaxe lingüística” (p. 255) – ato primordial na gestão do conhecimento, nosso objeto de estudo - que consiste no domínio do acoplamento social e da comunicação. Compartilhamos o mundo, as interações e a nossa comunicação é indissociável destes atos. Por conta disso, o refletir sobre esse complexo processo e voltar-se a si mesmo, é a única oportunidade que temos de descobrir nossas cegueiras (p. 30), permitindo o surgimento de um novo mundo, um novo conhecer. Pela linguagem podemos explicar como nosso fazer de ser vivo autônomo, ocasiona um movimento interno biológico e social, descrevemos a observação que fazemos de nós mesmos, dando-nos conta de nossa regularidade e mutabilidade. Conhecer o que ainda é inacabado já dá mostras do novo mundo que podemos construir. E basear nossos movimentos internos e externos na ética e na amorosidade é fundamental. Podemos “aprender a nadar ou levar nossos repolhos”.
Cada um sabe de suas necessidades.
Abraços cordiais: Alessandra Ames.
REFERÊNCIA:
Maturana, H. R & Varela, F.J. (2001) A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 6ª ed. São Paulo: Palas Athena
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