MATURANA, VARELA E A GESTÃO DE CONHECIMENTO
Maturana e Varela nos oportunizam uma reflexão muito peculiar acerca do conhecer e do conhecimento. Partindo de uma (re)visita às bases biológicas da compreensão humana os autores mostram que os seres vivos são frutos de organizações autopoiéticas e se relacionam em rede. Isso lhes confere uma característica fundamental: a cada ação cabe uma reação. Em relação aos seres humanos, há uma peculiaridade bem específica: são seres comunicativos, utilizam-se da linguagem para expressar seus pensamentos, organizam-se em sociedade na qual há uma circularidade cognitiva e como ensinam os autores todo fazer leva a um novo fazer: é o círculo cognitivo que caracteriza o nosso ser, num processo cuja realização está imersa no modo de ser autônomo do ser vivo[1].
Linguagem é movimento o que implica na criação de pontos cegos cognitivos que confundem a visão. Partindo de uma analogia, ao trocar reflexões em um fórum de discussões, por exemplo, cria-se a possibilidade de movimentar a linguagem e de gerir conhecimentos. Abruptamente se é desafiado a pensar sobre o conhecimento e a gerir informações diversas em um meio cultural antes desconhecido, o que de certo modo, move o chão e impele os sujeitos a reagir de posse das novas informações oferecidas e dos conhecimentos prévios existentes.
Por isso, nossos pontos cegos cognitivos são continuamente renovados e não vemos que não vemos, não percebemos que ignoramos. Só quando alguma interação nos tira do óbvio – por exemplo, quando somos bruscamente transportados a um meio cultural diferente - , e nos permitimos refletir, é que nos damos conta da imensa quantidade de relações que consideramos como garantidas[2].
Isso é o que deve acontecer nas escolas. Os alunos devem ser desafiados, os conceitos devem ser colocados em xeque, (re)vistos e (re)construídos continuamente. Pois, conforme Freire, ao ser produzido, o conhecimento novo supera o outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã.[3]
Nesta perspectiva, chega-se à gestão de conhecimento. Perceber os talentos dos indivíduos e grupos, promover o reforço dos mesmos, agregar valor ao saber, aos sujeitos e à instituição permitindo a circulação do conhecimento é o que torna isso possível. Sabbag fala do encaixe esquemático entre as dimensões individual, grupal e organizacional e ensina que circulando conhecimentos entre indivíduos, grupos e organização, se estabelece um “círculo virtuoso.”[4]
Neste aspecto, o ser humano se diferencia dos demais seres pela consciência que lhe permite refletir acerca do que ele é capaz e lhe concede a possibilidade de perceber o que pode ser feito em prol do Universo. Essa possibilidade exige compromisso e deve ser pautada fundamentalmente na ética, na aceitação do outro e na amorosidade. É a oportunidade de encontrar os pontos cegos e, ao percebê-los, abrir espaço para um novo agir preocupado com toda a rede de relações, com toda a teia da vida, com o Universo. Assim, gerir o conhecimento, é tornar-se forte, flexível, melhorar e evoluir. É ter a possibilidade de (trans)formar e de gerar inovação, tornando reais os desejos compartilhados e permitindo a circulação de conhecimentos em prol de todos.
REFERÊNCIAS
Freire, P. (1996) Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 20ª ed. São Paulo: Paz e Terra
Maturana, H. R & Varela, F.J. (2001) A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 6ª ed. São Paulo: Palas Athena.
Sabbag, P.Y. (2007). Espirais do conhecimento: ativando indivíduos, grupos e organizações. São Paulo: Saraiva.
[1] Maturana, H. R & Varela, F.J. (2001) A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 6ª ed. São Paulo: Palas Athena (p.264).
[2] Maturana, H. R & Varela, F.J. (2001) A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 6ª ed. São Paulo: Palas Athena (p.264).
[3] Freire, P. (1996) Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 20ª ed. São Paulo: Paz e Terra. (p.31)
[4] Sabbag, P.Y. (2007). Espirais do conhecimento: ativando indivíduos, grupos e organizações. São Paulo: Saraiva. (p.303)
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